Jogos de futebol sempre foram parte da minha vida. Cresci manipulando direções, dribles e gols virtuais desde a era dos consoles de 16 bits, e posso afirmar: são mais de 20 anos jogando futebol digital. Lembro com carinho (e nostalgia) de games como International Superstar Soccer Deluxe, que marcou uma época em que ver jogadores em pixel já era mágico para muitos entusiastas no Brasil.
Ao longo dessa jornada gamer, transitei por diversas franquias. O Winning Eleven, que depois virou Pro Evolution Soccer, me atraía pela fluidez e pelos dribles, mas chegou um ponto, em 2014, em que me senti desconectado da direção que o PES vinha tomando. Foi então que migrei para o universo da EA com FIFA 14, ingressando de fato naquele ecossistema competitivo, de modos online, Ultimate Team etc. Desde então, me tornei jogador assíduo da franquia EA, acompanhando cada mudança, polêmica e redenção da série.
Com o rebatismo da franquia para EA Sports FC, após o fim da parceria com a FIFA, muitos esperavam um renascimento: nova identidade, liberdade criativa, reinvenção. Para mim, essa transição representava um respiro, um momento em que o jogo poderia finalmente escutar mais os jogadores, ousar mecanicamente e se afastar de paradigmas repetidos. E é dentro desse contexto, como alguém que viveu várias curvas do gênero futebol nos videogames, que levo minhas críticas ao FC 26.
A franquia, as expectativas e o dilema do “novo”

A mudança de nome para EA Sports FC (que vem desde o FC 24) veio recheada de promessas: liberdade de licenciamento, mais flexibilidade criativa e um afastamento dos antigos limites impostos pela marca FIFA. Muitos jogadores esperavam que esse novo capítulo fosse uma ruptura, um “salto evolutivo” na jogabilidade, no equilíbrio, na profundidade de modos offline e na consistência online.
Mas a realidade não é tão simples. A franquia carrega seu legado, seu público exigente e muitos vícios antigos. Em FC 26, a EA tenta equilibrar dois mundos: aquele voltado ao competitivo e ao monetizado (Ultimate Team, Rivals, Champions) e aquele que apela ao jogador que quer jogar “sozinho”, com modos carreira, amistosos e torneios. Essa dicotomia, se bem nutrida, pode ser valiosa, mas também pode deixar o jogo esticado demais, sem identidade única.
Para mim, que acompanho esse universo há bastante tempo, a expectativa era ambiciosa: que FC 26 se tornasse um divisor de águas. Que fosse um título da EA a ousar abandonar o supérfluo e focar no essencial: controle, equilíbrio, diversão, consistência. Mas a balança desse jogo pende para ambos os lados: há pontos de conquista, mas também falhas gritantes.
Minha vivência no jogo: horas, dedicação e imersão

Para construir este review, investi cerca de 50 horas de gameplay no FC 26, sobretudo no Ultimate Team, além de, facilmente, mais de 10 horas no Companion (aplicativo), gerenciando elencos, completando DME’s, testando formatações e calibrando estratégias. Vi de perto o “grind” necessário, as frustrações dos menus, as partidas desequilibradas e também os momentos brilhantes, onde a sinergia entre equipe e controle aparece em sua forma mais pura.
Antes de virar um jogador assíduo de Ultimate Team, passei muitos finais de semana da minha infância imerso no modo Master Liga no Winning Eleven e começando do zero várias vezes com Castolo, Ordaz e companhia no time. Saber que hoje posso acessar partidas online, participar de torneios globais e competir em níveis elevados ainda me impressiona. Mas também me dá uma expectativa alta, e, quando o jogo falha, dói. E é justamente esse olhar de quem “viveu a transição” que quero compartilhar: o entusiasmo, a crítica e a decepção.
Gameplay: avanços, desacertos e oscilações

No online / competitivo — Ultimate Team & Rivals / Champions
Esse é o núcleo pulsante do FC 26. Aqui moram os jogadores mais exigentes, os que buscam elo, vitória e reconhecimento digital. E, sob essa ótica, o jogo evolui, mas ainda vacila.
- A sensação de jogo está mais administrativa: o foco contínuo no sistema de evoluções permite com que os jogadores façam elencos mais variados e joguem com seus atletas preferidos por mais tempo.
- A promessa de “frear” e dar mais cadência ao jogo, não elimina completamente artifícios desequilibrados, como passes de primeira, bolas enfiadas certeiras e chutes-surpresa, que ainda rendem gols absurdos se bem executados.
- O update recente, quebrou de vez o equilíbrio defensivo: zagueiros se afastam da bola, abrindo corredores gigantes. Joguei partidas com placares inacreditáveis como 9×7, 8×5, 6×6. Isso não é apenas exagero de patch, é um colapso do controle tático.
- Antes da mudança, nas versões anteriores, as defesas automáticas da CPU protegiam jogadas que deveriam ser livres, algo que irritava quem tinha domínio técnico. Em FC 26, há uma transição para defesas manuais mais “rígidas”: se você não posicionar bem, vai sofrer. Isso punirá muitos jogadores casuais, mas é uma mudança que eu defendo intensamente.
- Os goleiros aparentam melhorias: mais elásticos, com reflexos mais coerentes e posicionamento menos “absoluto”. Ainda não são perfeitos, mas dão matéria-prima para partidas mais competentes.
- A clássica “trivela de meio-campo bugada” foi atenuada, exigindo melhor construção tática e encaixe de estilo de carta.
- A eliminação do chute calibrado como era nos antigos fifa (duplo botão para rasante) e a volta de finalizações rasteiras padrões trouxe novidade ao sistema de finalização.
- Passes, movimentações e inteligência de campo melhoraram, mas a evolução é menor do que o hype sugeria.
Em resumo: quando o jogo está balanceado, o FC 26 entrega partidas intensas, de duelos técnicos e disputas apertadas. Quando está desequilibrado, após um patch problemático, vira uma bagunça de gols excessivos e causos inverossímeis.
Sei que isso é algo recorrente e que novas correções virão, e, inevitavelmente, outros patches podem voltar a desbalancear o jogo. Isso faz parte do universo competitivo, mas falhas desse tipo acabam afastando (às vezes de forma definitiva) os jogadores, além de resultar em muitos controles quebrados pelo caminho.
No offline / modos carreira e diversos
Se o online é o palco principal, os modos offline são o espaço de respiro, e foi aí que achei as propostas mais interessantes.
- A gameplay “Autêntica”, disponibilizada para modos de carreira e torneios offline, desacelera tudo. Os passes são mais cautelosos, o ritmo de jogo é mais realista.
- Entretanto, essa lentidão excessiva abre lacunas para a IA e o jogador encontrarem espaços demais. É uma boa adição, mas ainda pode ser melhorada.
- O modo carreira recebe os eventos aleatórios (negociações bloqueadas, clubes vendidos, lesões em treinos) que trazem diversão e novidade.
- O novo “mercado de técnicos” é um passo interessante: treinadores da CPU agora trocam de clube, demissões são mais orgânicas, e isso ajuda a dar dinâmica ao campeonato.
- Falta imersão narrativa: comparado com modos de carreira esportivos em NBA 2K ou MLB, o FC 26 oferece cutscenes mínimas, sem missões secundárias ou construção de histórias do jogador.
- E, talvez o golpe mais duro para quem acompanha o futebol brasileiro: não há elencos brasileiros licenciados, apenas uniformes de alguns clubes. Isso quebra a imersão radicalmente para quem joga com paixão nacional.
Comparativo com versões passadas e reflexões históricas

Se formos olhar para trás, vejo claramente uma linha evolutiva que vai de FIFA 14 / 15 até hoje. Naquela era, o equilíbrio entre simulação e jogabilidade arcade era mais tangível: menos “exageros meta”, menos patches extremos, mais previsibilidade nos resultados.
Desde FIFA 18 em diante, a franquia da EA parece oscilar entre extremos: padrões exagerados, aceleração abusiva, desequilíbrios que exigem correções agressivas. FC 26 tenta domar essa montanha-russa: segura mais o impacto, introduz cadência, tenta balancear. Mas ainda está longe de recuperar a “linha de jogo ideal” que muitos de nós achamos ter existido entre 2014 e 2018. O público competitivo talvez absorva bem as imperfeições e consiga se adaptar ao meta.
A trilha sonora contínua sendo uma das qualidades da franquia. Por mais que não esteja tão boa quanto a de anos anteriores, é possível achar facilmente uma porção de músicas que você vai adicionar à sua playlist.
Afinal, vale a pena?

EA Sports FC 26 é um jogo que caminha sobre a corda bamba entre inovação e repetição. Tem qualidades reais: uma jogabilidade mais cadenciada, avanços defensivos, sistema de evoluções, identidade no modo Clubs. Mas também peca onde não pode: patches que desbalanceiam, modos offline superficiais, ausência da imersão brasileira e grind desnecessário.
Para mim, que jogo futebol nos videogames há mais de duas décadas, FC 26 é um passo certo, não um salto espetacular. Ele corrige alguns rumos, mas ainda carrega muitos fardos das edições passadas. Em muitos momentos me diverti, vibrei com gols e jogadas bem encaixadas e provoquei meus adversários com comemorações duvidosas. Em outros, fiquei irritado com desequilíbrios e decisões de design questionáveis.
É até estranho dizer isso, mas não presenciei nenhum bug em todas essas horas de gameplay. Algo para ser elogiado. Outro ponto bem positivo que não mencionei é o modo Rush, que por mais um ano traz bastante diversão e quebra um pouco o peso das partidas 11v11.
Se você busca um futebol digital para se perder com amigos, construir equipes, competir e gastar horas, FC 26 entrega isso com competência. Se você espera imersão, narrativa, modos offline robustos ou realismo extremo, vai sentir que algo está faltando. É um game maduro, com acertos e falhas e com um ar de “bom, mas poderia ser mais”.
Veja também meu review de EA Sports FC 25 para o SBT Games.











