De tempos em tempos vemos uma obra, seja da vertente qual for, trazer em si uma nítida referência ou inspiração de clássicos de outrora. É como ouvir uma música atual que te transporta para os anos 80, um filme que te transporta para quando era uma criança ou até um jogo que faz você lembrar de uma época que não volta mais.
Todas essas obras são felizes em seu saudosismo. Eu gosto de me isolar do pensamento de cópia (salvo as que são realmente) e me agraciar com um advento de algo de bom gosto e bem intencionado. Ainda mais porque quem ama videogame sabe deixar-se ser surpreendido e transportado.
Dito isso, vamos entrar na review que me deixou muito ansioso para falar sobre esse jogo.
Clássico contemporâneo?
The Adventurer of Elliot – The Millennium Tales é uma dessas obras que comentei. Ele vai sem dúvidas voltar seus olhos para clássicos, que no meu caso foram o incontestável The Legend of Zelda e Chrono Trigger. Aqui eu ouso dizer que a Square Enix não teve medo nem preocupação ao ir de encontro ao gênero, teor e narrativa. É como se você tivesse uma fórmula muito bem resolvida e realizada e tivesse como usar a mesma receita para criar algo novo, semelhante, mas muito feliz e bem executado.
Após boas experiências com o gênero 2DHD e 2.5D, a Square veio com algo para chamar de seu, para iniciar um caminho mais original e mais importante, se estabelecer além dos RPGs de turno com um RPG de ação inspirado nos clássicos.
Mas logo de cara preciso fazer uma crítica dura e importante para o jogo. É realmente muito negativo e contra produtivo termos um título como este sem a tradução para o português do Brasil. Infelizmente é uma barreira enorme que o próprio jogo põe contra si mesmo para chegar a inúmeras mais pessoas do que poderia estar chegando. Fico realmente triste, pois jogos como este que a história move o jogador e a gameplay, não fará sentido para aqueles que tentaram jogar sem entender o mínimo de outro idioma.

O aventureiro e a princesa
Estamos no reino de Huther, onde as muralhas carregam um feitiço poderoso emanado da Princesa que faz com que a cidade esteja segura das bestas e criaturas que afrontam o lado de fora. Lá vive Elliot, um aventureiro que aparenta nunca ter tido dúvidas sobre quem é. Pronto para ajudar desde o mais humilde morador que perdeu um objeto precioso de família, até salvar o reino se for preciso.
Tudo muda quando Elliot é solicitado pelo rei para explorar uma ruína onde supostamente há algo precioso e que ajude o reino a tirar o fardo da princesa com a proteção da cidade inteira. Elliot não exita em aceitar e parte para a aventura onde descobre uma porta capaz de viajar no tempo. Sem ousar passar por ela, ele volta para a cidade e reporta ao Rei, que cautelosamente não se precipita e decide tratar tal tecnologia com cuidado.
Porém Kailfred, o ministro, acha ultrajante o fato do rei não ser ativo em fazer algo e toma a frente, indo para porta sem autorização para tentar usar seu poder para seus próprios fins.
Elliot vai atrás de Kailfred quando já é tarde e todo o futuro estará em suas mãos para que ele corrija o que pode ser feito ou desfeito.
Um clichê bem colocado, pronto para entrar num caminho de perguntas, teorias e conspirações que escondem toda uma maior narrativa que se estende às suas 20 horas de gameplay para a história principal.

De volta para o passado
Durante nossa jornada temporal, visitaremos 4 eras diferentes. Todas no passado e que se passam no mesmo território. Foi difícil não mergulhar neste mundo, pois a todo momento éramos apresentados a referências e resquícios de história durante toda a transição das eras. Tanto pelos personagens que são tratados como a arquitetura da cidade e dos vales que vamos visitar durante a gameplay.
A movimentação de Elliot pelas eras e pelos territórios é super importante e facilitada por pontos de controle onde ao passar por eles, liberaremos a viagem rápida e também salvaremos o jogo. Após viajar pela primeira vez ao passado, as viagens rápidas irão se resumir a só abrir o mapa e escolher o posto de controle que deseja ir na era desejada. Creio que teria sido mais interessante e imersivo fazermos sempre passarmos por uma porta do tempo para mudarmos de era. Desta maneira que foi feito, se perde a magia e muita vezes nem vamos lembrar de fato em que era estamos se não estivermos em lugares específicos ou estivermos bem familiarizados com a música.

O mapa não é grande, mas é moldado para ser minimamente diferente ao viajar entre as eras. Muitos espaços infelizmente, nitidamente são esquecidos e parecem só existir em outras eras, sem ao menos monstros ou baús para preencher melhor a demografia do território. Senti falta de encontrar mais elementos durante as travessias para realizar missões.
E falando em monstros, o jogo traz uma variedade honesta de criaturas, mas ainda sim senti falta de uma variedade maior pelo fato de viajarmos tanto no tempo e não encontrarmos versões mais diferentes dos monstros que já são encontrados na primeira era. Não, não são pouco monstros, mas devido a essa transição, faria mais sentido termos uma mudança da fauna do jogo para criar essa percepção de tempo e ameaça.
Algo que veio de herança de seus anteriores jogos como Octopath Traveler e Triangle Strategy, é sua fenomenal ambientação e beleza nos seus gráficos, principalmente em áreas onde a câmera do jogo se põe numa visão mais horizontal para criar profundidade e entregar um cenário digno de papel de parede.
A viagem no tempo vai ser aliada tanto a história obviamente como também a evolução do personagem. Muitos dos itens que vão ser chaves para fortalecimento de Elliot só vão ser encontrados em eras específicas e momentos certos da história. Fazendo com que seja recompensador explorar além do que é designado pelas missões principais.

Mais 15 minutos, por favor!
Nada como jogar algo e não sentir o tempo passar. Imergir numa história envolvente, mas que além de tudo, faz com que você aperte botões e sinta seu nível de serotonina subir!
Temos tudo que um bom jogo de aventura pode oferecer aqui. Uma variedade boa de armas, poderes com usos variados que se limitam a sua criatividade e um level design que acompanha aceitavelmente as necessidades do jogador. Mas nem tudo são flores…
As Aventuras de Elliot me traz dúvidas enquanto um RPG de ação. Pois creio que seja mais honesto chamá-lo de um jogo de aventura com elementos de RPG. Sendo assim, posso dizer que seu sistema após um momento do jogo pode parecer lento e afetar no desenrolar e na imersão da história, justamente pelo saudosismo a jogos clássicos do gênero.

Tive para mim que as armas são dadas muito cedo para o jogador. E para entender isso, temos que falar sobre o sistema de níveis do jogo.
Nosso personagem não tem nível nem pontos de experiência para serem distribuídos. Só iremos evoluir no decorrer que formos encontrando armas com quantidades de estrelas maiores. Além também dos poderes que forem dados ao nosso companheiro (que vou citar logo). Tendo armas com no máximo 3 estrelas, iremos trocar de arma para ganharmos uma quantidade de dano maior e um ataque carregado mais forte. E assim se segue para todas as armas que nos são dadas.
Para mim, que sou um jogador meio termo em relação a exploração, acabei pegando algumas armas de 3 estrelas antes mesmo de pegar as de 2 estrelas. Pois não existe uma evolução que nos instigue a evoluir proceduralmente. Ainda mais se você tiver facilidade no sistema de combate. Sobre a dificuldade, tive alguns momentos de desafios mais árduos contra chefes, mas nada que poucas repetições não fossem suficientes para superá-los.

Até diamantes precisam ser lapidados
Seu sistema no geral funciona muito bem. Como eu disse, talvez algumas coisas quebrem o ritmo, mas nada vai fazê-lo imperativamente fechar o jogo por repetição ou cansaço. Considerando que a Square Enix quis fazer um piloto para uma nova franquia de RPG de ação, é mais do que coerente vermos muitas coisas lapidarem em possíveis próximos jogos.
Elliot tem uma barra de vida baseada em pequenos cristais, que podem ser aumentados após realizar desafios em templos espalhados pelo mapa, indiscutivelmente semelhantes aos “shrines” de Zelda. Lá teremos puzzles, desafios de combate e trajetos de plataforma para liberarmos uma sala com o tesouro e um fragmento deste cristal, que após 4, se torna um novo inteiro para o HP de Elliot.
E não menos importante, Elliot terá uma companheira durante sua jornada. Durante a demonstração que foi disponibilizada, tivemos a princesa Helria como companheira e ela tinha o poder de nos curar de tempos em tempos, respeitando um “cooldown” que é mostrado na tela. E além da princesa, poderemos ter Faie, uma fada misteriosa que não terá só 1 habilidade especial, como 5.
Mesmo tendo várias habilidades, confesso que não senti muita necessidade das combinações dos poderes e até esquecendo de usar outros por simples acomodação com o sistema de combate. Isso pode mudar ao tentar jogar numa dificuldade maior do que a padrão do jogo, mas fica aqui minha expectativa um pouco quebrada ao sentir algumas mecânicas abandonadas.
Na mesma intenção dos cristais de HP, serão os templos que liberaram os poderes novos e também haverão os de desafios para evoluir as habilidades de Faie, que ganhará utilidades maiores para os poderes

Tem pra todo mundo
Em algum momento, você vai quebrar sua cabeça para decidir o que usar ou vai simplesmente sentir preguiça e ir no automático em relação aos itens do jogo.
No jogo, teremos a mecânicas de gemas para aprimorar nossas armas. São muitas gemas com diversas possibilidades de combinações que tornam a arma mais forte e também podendo mudar sutilmente sua funcionalidade.
Essas gemas nós podemos adquirir nas cidades do jogo, com um NPC misterioso que vende para nós em troca de pedras brilhantes deixadas por monstros e chefes. O que é curioso aqui é que a mecânica para a compra é um gotcha. Sim, um gotcha! Teremos uma porcentagem dos drops dos níveis de gemas, sendo bem raro pegarmos uma gema com nível máximo, mas que faz real diferença na hora do combate.
Além das gemas, teremos pingentes com atributos de porcentagem para equiparmos até 3 slots durante a progressão do jogo. No decorrer, iremos ganhar muitos pingentes importantes, mas assim como disse antes, ou você vai quebrar a cabeça para saber utilizar a todos, ou vai só adicionar os convenientes e mal entrar nesta aba.
Além destas mecânicas, outra um tanto recreativa, mas recompensadora, fará o jogo trilhar um caminho fofo e muito charmoso. Em Adventures of Elliot colecionaremos gatos! Iremos buscar por eles por todo o mapa e levarmos para a cidade em troca de itens e conforto para eles. Acontece que estes mesmos gatos são mais importantes do que parecem.

Tudo menos pressa
Muitos dos pingentes e itens importantes para uma evolução considerável no jogo são adquiridas após realizar missões secundárias. Essa missões vão estar espalhadas por todo o reino pelas 4 eras que estaremos jogando. Vale prestar atenção e realizar todas sempre que possível, pois elas além de ajudarem na evolução do personagem, complementam histórias e tramas que fazem diferença para o entendimento final do jogo. O jogo alertará quando alguma missão estará no limite da progressão para ser realizada, pois se você avançar na história principal antes de fazê-la, não poderá mais terminá-la e perderá itens e resoluções.
As missões em sua maioria são sempre sobre ajudar personagens em dilemas pessoais e procura de itens necessários para alguma coisa. E justamente nessas que são sobre buscar itens específicos pode ser um tanto repetitivo e chato, pois vão se basear em teletransportar para um lugar, matar 1 monstro, voltar para a missão, solicitarem mais 1 item, voltar para o lugar, matar mais 1 monstro, voltar para a missão e torcendo para que não se repita novamente a mesma coisa. Talvez se houvesse uma exploração a mais para adquirir os itens, ou ter uma taxa de drop menor nos monstros seria uma maneira de não deixar a missão tão trivial e cansativa.

A jornada do Elliot
Não quero nem um pouco dar vislumbres da história, mas quero deixar claro que não é fraca, mas também não é forte. Muitas vezes o jogo vai nos render momentos de boa surpresa e de recompensa por teorizarmos sobre as passagens, mas também sinto que tive perguntas não respondidas e possíveis furos que afetassem um pouco a imersão na história. Tendo em mente a possibilidade da franquia ter uma continuidade canônica aos caminhos de Elliot, pode ser que esses “furos” sejam apenas interrogações intencionais para próximos títulos.
Precisamos lembrar que este é um JRPG e que suas qualidades de fantasia e história o fazem um digno JRPG. É um caso onde após jogar o jogo, você irá pensar sobre ele, ler sobre ele e escutá-lo fora do jogo.
Sua trilha sonora é um show a parte. Me pego cantarolando os temas da cidade principal de cada reino e percebo que fazia tempo que não era prendido por uma música assim. Mas não confunda com o que disse antes, até eu viciar na música, eu não reconhecia de “quando” ela era ainda.

Uma pausa e um convite
Existem dois elementos interessantes também para caso você queira mudar o ritmo da gameplay. O jogo vai te proporcionar um sistema de desafios para Faie. Para cada habilidade adquirida, haverá um minigame para desbloquear colecionáveis e dar uma pausa da gameplay principal. É uma ótima maneira de aprimorar o controle das habilidades e também curtir um momento desprendido da imersão.
O outro elemento foi uma surpresa. Faie, que te seguirá durante a gameplay poderá ser controlada por um segundo jogador. Todas as habilidades, acessibilidades e mecânicas poderão ser complementadas por uma outra pessoa jogando em conjunto com você.
É curioso pelo fato de ser uma jogatina totalmente coadjuvante e limitada tanto por espaço quanto por interação, mas que pode ser divertido ao colocar uma pessoa não tão familiarizada com vídeo game para jogar com você. Eu recomendaria usar a ferramenta como momentânea e não como fixa até o final do jogo. Mas você pode acabar se encontrando.

Conclusão
The Adventures of Elliot – Millennium Tales é de fato um jogo maravilhoso. Ele não só trabalha com o passado em sua “lore”, mas também em sua execução como jogo. Mesmo com alguns tropeços, não se ofusca pelo brilho que tem. É comum esperarmos desses jogos algo como já conhecemos, e aqui não é diferente ao encontrarmos e nos contentarmos com o mínimo que já é especial.
Eu mais do que gostei do jogo, gosto do potencial que ele traz para uma franquia que pode apaixonar muita gente. Trazer um gênero ainda visto como “oldschool” para uma visão mais atual, atingir mais jovens e mostrá-los um resquício do que sentíamos ao jogar os clássicos de Zelda por exemplo. Talvez a Square Enix já tivesse essa chance com seus RPGs por turno, mas indiscutivelmente um RPG de ação pode atingir diferente um público ainda maior.












