capa obscurium
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Preview | Obscurium aposta no terror brasileiro e tem boas cartas na manga

O roguelike brasileiro mistura terror, estratégia e criaturas folclóricas em batalhas ritualísticas, além de uma direção artística encantadora e mecânicas interessantes.

O folclore brasileiro é repleto de criaturas, lendas e histórias assustadoras que, apesar de fazerem parte da nossa cultura, ainda são pouco exploradas nos videogames. E se todas essas assombrações fossem reunidas em um jogo de cartas, no qual você precisa enfrentar cada uma delas para conseguir voltar à vida?

Essa é a proposta de Obscurium, jogo independente desenvolvido pelo estúdio brasileiro Wild Pepper Games. O título mistura elementos de terror e estratégia em um roguelike de construção de baralhos, no qual os jogadores enfrentam criaturas mitológicas enquanto percorrem diferentes regiões do Brasil.

Com lançamento previsto para 2027, Obscurium ainda está em desenvolvimento, mas já recebeu versões de demonstração para testes. Tivemos a oportunidade de experimentar uma delas e, apesar de alguns detalhes que ainda precisam ser aprimorados, o jogo já demonstra bastante personalidade, principalmente pela maneira como utiliza a cultura brasileira.

Um contrato para voltar à vida

Obscurium começa de uma maneira um tanto curiosa: você está morto.

Logo nos primeiros momentos, o protagonista se encontra com uma entidade misteriosa conhecida como Patrono, que oferece uma segunda chance de vida. Entretanto, como nada vem de graça, será necessário cumprir um pequeno favor em troca.

Segundo a entidade, algumas criaturas escaparam para o mundo dos vivos, onde não deveriam estar. Cabe ao jogador encontrá-las, caçá-las e selar suas almas. Em troca, o Patrono promete devolver sua vida.

Apesar de simples, a premissa funciona muito bem para apresentar o universo de Obscurium. O jogo não demora para explicar o que precisamos fazer, mas mantém um mistério interessante envolvendo o Patrono e as criaturas que estamos caçando.

Outro detalhe positivo é a localização. Mesmo ainda em desenvolvimento, a versão de demonstração que jogamos já oferecia três idiomas: português brasileiro, inglês e espanhol, permitindo que mais jogadores tenham contato com a história.

Como funciona o gameplay de Obscurium?

A principal mecânica de Obscurium gira em torno de batalhas de cartas, com um funcionamento que lembra bastante Inscryption, jogo de terror e estratégia lançado em 2021.

Os confrontos acontecem em um tabuleiro dividido em quatro colunas, onde o jogador e seu adversário posicionam cartas que representam criaturas com diferentes atributos e habilidades.

A princípio, o objetivo parece simples: utilizar suas cartas para derrotar as criaturas adversárias. Entretanto, o sistema apresenta algumas particularidades que tornam os combates mais interessantes.

Para posicionar novas cartas no tabuleiro, é necessário utilizar um recurso chamado essência, obtido por meio do sacrifício de outras cartas que já estão em jogo. Ou seja, nem sempre é possível simplesmente colocar sua criatura mais forte em campo. Muitas vezes, será necessário abrir mão de uma carta para conseguir invocar outra.

Essa mecânica faz com que o jogador precise pensar cuidadosamente em cada movimento, considerando tanto as cartas que possui quanto os espaços que ficará sem defender.

O objetivo dos confrontos também é diferente de simplesmente zerar a vida do inimigo. Para vencer, é necessário acender dez cristais ritualísticos, completando o ritual de selamento da criatura.

Para isso, o jogador precisa derrotar as cartas posicionadas à sua frente e aproveitar os espaços vazios para atingir diretamente o adversário. Cada ataque bem-sucedido acende um dos cristais, aproximando a partida da vitória. O contrário também acontece: caso o inimigo consiga atingir diretamente o jogador repetidas vezes, a derrota será inevitável.

É uma dinâmica interessante, principalmente porque exige equilibrar ataque e defesa. Em diversos momentos, sacrificar uma carta para posicionar outra mais poderosa pode parecer a melhor escolha, até você perceber que acabou deixando um espaço completamente desprotegido.

O sistema é fácil de compreender e oferece espaço para diferentes estratégias, especialmente conforme novas cartas são adicionadas ao baralho. Entretanto, apesar de apresentar bem as mecânicas básicas, ele não explica com tanta clareza o funcionamento e os efeitos das diferentes cartas, deixando algumas informações para serem descobertas durante as partidas.

Não chega a ser um grande problema, já que é possível aprender rapidamente enquanto joga, mas uma apresentação mais completa ajudaria bastante, especialmente quem não está familiarizado com jogos de construção de baralhos.

As regiões do Brasil se transformam nas masmorras do jogo

Em vez de apresentar masmorras tradicionais, comuns em tantos outros roguelikes, Obscurium transforma as próprias regiões do Brasil em seus cenários.

Ao selecionar uma região no mapa, o jogador percorre diferentes etapas, enfrentando criaturas inspiradas nas histórias e lendas daquele local.

Entre as entidades presentes no universo do jogo estão a Pisadeira, conhecida por atormentar quem dorme, o Capelobo, criatura monstruosa associada ao folclore do Norte do país, e o Caboclo d’Água, figura presente nas histórias de comunidades ribeirinhas.

Cada uma dessas criaturas possui seu próprio conjunto de cartas e características que influenciam os confrontos, fazendo com que o jogador precise adaptar suas estratégias. Estamos acostumados a encontrar figuras como o Saci e a Cuca em produções brasileiras, mas existem dezenas de outras criaturas igualmente interessantes que raramente recebem destaque.

A ideia de explorar diferentes regiões do Brasil, conhecendo suas assombrações enquanto avançamos na jornada, é um dos maiores acertos do jogo. Além de funcionar dentro da proposta de gameplay, também desperta curiosidade sobre as histórias por trás de cada criatura.

Nem tudo é combate

Outro elemento que ajuda a variar o ritmo das partidas são os eventos encontrados entre os confrontos.

Durante a exploração, o jogador pode encontrar personagens e situações que oferecem oportunidades para modificar seu baralho. Entretanto, assim como nas batalhas, quase sempre existe algum tipo de sacrifício envolvido.

Um dos exemplos é o Trapaceiro Maldito, que apresenta pequenos desafios durante a jornada. A proposta é arriscar uma das cartas do seu baralho para tentar conseguir uma opção melhor ou mais útil. Caso consiga vencer o desafio, o jogador recebe a recompensa. Entretanto, se perder, também perde a carta utilizada na aposta.

É uma mecânica simples, mas divertida, principalmente porque coloca o jogador diante de mais uma decisão arriscada. Vale a pena tentar melhorar uma carta que não está sendo tão útil ou é melhor manter o que já temos?

Outra aparição interessante é a do Mercador Viajante, que permite adquirir novas cartas em troca de outras que já fazem parte do baralho, possibilitando que o jogador construa diferentes estratégias.

São interações pequenas, mas que fazem diferença. Afinal, passar por uma sequência de batalhas sem nenhuma atividade diferente poderia tornar a experiência repetitiva rapidamente, né? Os eventos ajudam a quebrar esse ritmo e tornam a exploração mais interessante, além de reforçarem uma característica presente em praticamente todas as mecânicas de Obscurium: para conseguir alguma coisa, quase sempre é necessário abrir mão de outra.

Uma direção artística maravilhosa, mas um nome que poderia ser melhor

Se existe um aspecto no qual Obscurium realmente se destaca, é sua apresentação visual. As animações são lindas, e as ilustrações das cartas conseguem ser ainda mais bonitas. O jogo utiliza desenhos feitos à mão, inspirados na xilogravura brasileira, criando uma identidade visual que combina perfeitamente com sua proposta sombria.

O cuidado com os detalhes fica evidente tanto nas cartas quanto nos ambientes e elementos que compõem os rituais. Os desenhos das criaturas conseguem transmitir uma atmosfera assustadora sem abandonar as referências culturais que inspiraram o projeto.

A utilização de cores mais escuras, contrastes fortes e elementos ritualísticos também contribui para a ambientação, fazendo com que o jogo tenha um visual bastante marcante. E é justamente por gostar tanto dessa identidade brasileira que um detalhe me incomodou: o nome “Obscurium”.

O título funciona para transmitir uma atmosfera de mistério e terror, mas não diz absolutamente nada sobre o que considero ser o maior diferencial do jogo: sua cultura. Obscurium poderia facilmente ser o nome de qualquer outro jogo independente de terror, desenvolvido em qualquer lugar do mundo, e isso me parece uma oportunidade desperdiçada, principalmente considerando o cuidado que a desenvolvedora teve ao representar o folclore brasileiro.

É raro encontrar uma produção que utilize referências nacionais de maneira tão natural, sem que elas pareçam simplesmente colocadas ali para lembrar o jogador de que está diante de um produto brasileiro.

O jogo consegue incorporar essas inspirações tanto na direção artística quanto em suas mecânicas, personagens e cenários. Por isso, seria interessante que essa personalidade também estivesse presente no primeiro contato que o público tem com ele: seu nome.

Obscurium lembra Inscryption, mas tem potencial para ir além

É praticamente impossível jogar Obscurium sem pensar em Inscryption. A estrutura dos confrontos, o uso de sacrifícios para invocar cartas e até mesmo a atmosfera misteriosa tornam a inspiração bastante evidente.

Isso não significa, necessariamente, algo negativo. Inscryption é um dos títulos mais conhecidos do gênero, e aproveitar mecânicas que já funcionam pode ser um bom ponto de partida para desenvolver novas ideias.

Enquanto suas batalhas seguem uma estrutura familiar, a ambientação brasileira oferece uma identidade própria que poderia ser ainda mais explorada. Os eventos, os diferentes tipos de criaturas e a maneira como as regiões do país são incorporadas à jornada são alguns dos elementos que ajudam a diferenciá-lo.

Em um roguelike, perder e começar novamente faz parte da experiência. Entretanto, para que essa repetição seja divertida, o jogador precisa sentir que está aprendendo e descobrindo novas possibilidades, e não simplesmente repetindo os mesmos confrontos até conseguir uma combinação favorável.

A demo já apresenta uma base interessante para isso, especialmente com os eventos que permitem modificar o baralho. Resta saber se a versão completa conseguirá manter essa variedade durante uma campanha maior.

Vale a pena ficar de olho em Obscurium?

Mesmo ainda em desenvolvimento, Obscurium conseguiu deixar uma impressão bastante positiva.

Seu maior acerto, sem dúvidas, é a maneira como valoriza o folclore brasileiro. As criaturas, os cenários, as ilustrações e até pequenos detalhes das mecânicas mostram um cuidado especial com a identidade cultural do jogo. As animações são muito bonitas, e as cartas apresentam ilustrações que, por si só, já despertam vontade de conhecer mais sobre o universo apresentado.

As batalhas são interessantes, principalmente pelo sistema de sacrifícios e pela necessidade de planejar cada movimento. Além disso, eventos como o Trapaceiro Maldito e o Mercador Viajante ajudam a trazer variedade para a exploração.

Por outro lado, ainda existem pontos que poderiam ser aprimorados. A forte semelhança com Inscryption também faz com que Obscurium precise investir ainda mais em suas próprias ideias para não ficar preso à comparação.

De qualquer forma, Obscurium é uma produção nacional que merece atenção. A Wild Pepper Games encontrou no nosso folclore um universo cheio de possibilidades e, pelo que a demo apresenta, tem boas ideias para aproveitá-lo.

Com alguns ajustes e mais conteúdo, o jogo pode se tornar uma ótima opção para quem gosta de estratégia, terror e, principalmente, de conhecer histórias que fazem parte da nossa cultura.

Obscurium tem lançamento previsto para 2027 no PC e já pode ser adicionado à lista de desejos na Steam.