Review | Hollow Knight: Silksong

Desafiante, belo e grandioso: Silksong é a expansão perfeita do legado de Hollow Knight.

Poucos estúdios independentes marcaram tanto a cena dos games quanto a Team Cherry. Em 2014, o estúdio lançou uma campanha de Kickstarter com uma proposta modesta: criar um metroidvania desenhado à mão, inspirado em clássicos, mas com identidade própria. A meta inicial era pequena, mas o projeto ganhou força rapidamente graças ao carisma da ideia e ao entusiasmo da comunidade. O financiamento coletivo não só viabilizou o desenvolvimento, como ajudou a criar desde cedo uma base de fãs engajada que acompanhou cada passo do processo.

Três anos depois, em 2017, esse esforço se concretizou em Hollow Knight, um título que ultrapassou qualquer expectativa. O jogo trouxe uma atmosfera única, sombria e ao mesmo tempo poética, aliada a uma jogabilidade precisa e desafiadora. O design de mundo interconectado, cheio de segredos e histórias contadas em detalhes sutis, fez com que cada descoberta fosse marcante. Mais do que um sucesso comercial, Hollow Knight conquistou uma verdadeira legião de fãs, que até hoje consideram o jogo não apenas um dos maiores indies já lançados, mas também um dos metroidvanias mais influentes da indústria.

O suporte da Team Cherry após o lançamento também ajudou a consolidar essa reputação. O estúdio entregou inúmeras DLCs gratuitas, expandindo ainda mais o conteúdo e mostrando um comprometimento raro com a comunidade. Silksong, aliás, nasceu dessa mesma filosofia: inicialmente seria apenas um conteúdo extra de Hollow Knight, focado em Hornet como personagem jogável. Mas a ideia cresceu tanto em escala e ambição que acabou se transformando em um novo jogo completo — um projeto que herdaria o DNA do original, mas com identidade própria.

Essa paixão também se refletiu na longa espera pela sequência. Foram quase sete anos de especulações, trailers breves e um silêncio que deixava os fãs malucos, a ponto de muitos questionarem se Silksong realmente existia. Em entrevista à Bloomberg, os desenvolvedores explicaram que o processo se estendeu porque estavam se divertindo no desenvolvimento — testando ideias, refinando mecânicas e expandindo o mundo até chegarem ao resultado que buscavam.

Quando a Team Cherry finalmente revelou a data de estreia em um trailer lançado poucas semanas antes, a surpresa foi geral. E em 4 de setembro de 2025, a espera terminou. Mas o que realmente chamou atenção foi o preço: apenas R$ 60 no Brasil. Um valor quase simbólico diante da grandiosidade do que foi entregue, que imediatamente gerou debates na indústria sobre a precificação de jogos.

O impacto foi sentido já nas primeiras horas: Silksong bateu recorde de jogadores simultâneos na Steam em suas primeiras 24 horas, e a alta demanda chegou a deixar diversas lojas digitais offline temporariamente, tamanha a corrida para adquirir o game no lançamento. Foi o tipo de estreia que reforça não apenas o tamanho da base de fãs, mas o lugar especial que esse universo ocupa dentro da indústria.

Hollow Knight: Silksong

Uma Nova Jornada

Silksong se passa após os eventos do primeiro jogo, funcionando como uma continuação direta. Logo no início, vemos Hornet enfraquecida e aprisionada em uma jaula, sendo escoltada por insetos misteriosos. Levada à força para o distante reino de Fiarlongo, que se torna o ponto de partida de sua nova jornada. Após se libertar Hornet se vê envolvida em uma trama de enigmas e segredos, e parte na missão de recuperar seus poderes e descobrir as verdadeiras motivações de seus sequestradores.

A narrativa se constrói tanto por meio de diálogos que ela estabelece com NPCs espalhados pelo mundo quanto pela própria ambientação, que conta sua história em ruínas, monumentos e detalhes sutis. Cada encontro e cada cenário carregam pistas que convidam o jogador a decifrar, pouco a pouco, o mistério maior que envolve esse reino.

Hollow Knight: Silksong

Perdido em Fiarlongo 

A experiência de jogar Silksong é ao mesmo tempo fascinante e implacável. Fiarlongo se revela como um mundo complexo, exuberante e vivo, onde cada cenário esconde não apenas beleza, mas também perigos constantes. A exploração é desafiadora: saltos precisos, armadilhas escondidas, espinhos letais e inimigos variados compõem um labirinto que testa a atenção e a paciência do jogador a cada passo. A progressão pelos cenários é marcada por essa sensação constante de descoberta — muitas vezes o jogador se verá perdido, forçado a observar detalhes do ambiente ou a buscar respostas nas conversas com NPCs para avançar.

E tudo isso ganha ainda mais força graças à direção de arte, que impressiona em cada detalhe. Os cenários desenhados à mão são belíssimos, cheios de personalidade, e transmitem a atmosfera de Fiarlongo de forma única. Da mesma forma, a trilha sonora se destaca como um dos grandes pontos da experiência: marcante, envolvente e sempre pontual, ela sabe quando intensificar a tensão de uma batalha ou quando reforçar a melancolia de uma área isolada. Assim como no primeiro jogo, a música é parte fundamental da imersão, tornando cada momento ainda mais memorável.

É nesse conjunto que Silksong mostra sua força como metroidvania: a dinâmica de backtracking se faz presente o tempo todo. Os mapas bifurcam em incontáveis caminhos, oferecendo escolhas e possibilidades que raramente se esgotam. Em diversos momentos, o avanço só é possível após aprender habilidades específicas, que abrem passagens antes inacessíveis e dão aquele prazer único de revisitar áreas já exploradas sob uma nova perspectiva.

Hollow Knight: Silksong

Brasões, Ferramentas e Desejos

Hornet pode ser ágil e veloz, se movimentar com uma fluidez impressionante, com saltos precisos e ataques rápidos e certeiros. Cada confronto pode ser encarado de múltiplas formas, e a precisão dos comandos coloca constantemente os reflexos do jogador à prova, exigindo atenção redobrada e respostas rápidas diante da variedade de inimigos e armadilhas. Essa dinâmica se torna ainda mais interessante com o uso de ferramentas, que ampliam as possibilidades durante a aventura. Hornet tem acesso a recursos que podem ser utilizados tanto para atacar inimigos quanto para potencializar seus próprios golpes, criando novas formas de lidar com os perigos de Fiarlongo. O uso dessas ferramentas, entretanto, possui um custo, o que exige atenção na hora de acioná-las, já que só podem ser totalmente repostas ao descansar nos bancos espalhados pelo mapa. Essa camada extra de estratégia enriquece o ritmo da exploração e do combate, tornando cada decisão parte da experiência. 

Uma novidade bem vinda é o sistema de brasões, que servem para equipar equipamentos, amuletos e habilidades, além de mudar completamente o estilo de gameplay. Cada brasão altera a forma como Hornet luta ou atravessa os cenários, criando identidades de combate únicas. O Brasão da Besta, por exemplo, converte os golpes de Hornet em ferroadas ferozes, enquanto o Brasão do Viajante oferece versatilidade na exploração, facilitando travessias complexas.

Essa mecânica fica ainda mais rica dependendo das combinações de amuletos e ferramentas, abrindo espaço para sinergias que modificam desde a potência das armadilhas até os próprios ataques da Hornet.

É nesse equilíbrio entre brasões, amuletos e ferramentas que Silksong encontra uma jogabilidade profundamente variada, sempre convidando o jogador a experimentar novas combinações e descobrir formas diferentes de enfrentar cada desafio.

Além de toda mecânica, um dos elementos que mais enriquecem a jornada em Silksong é o sistema de Desejos, que funciona como as quests do jogo. Se no primeiro título esse tipo de dinâmica era raro, aqui ela surge em abundância, ampliando ainda mais a imersão do jogador. Cada Desejo nasce de uma interação com um NPC e se transforma em uma missão que desafia a explorar Fiarlongo em profundidade, muitas vezes levando a locais ocultos ou exigindo enfrentar inimigos implacáveis. 

Hollow Knight: Silksong

Um Elefante na sala: A Dificuldade

A dificuldade dos jogos sempre foi um assunto em alta no mundo dos videogames, com jogadores dos mais variados estilos buscando superar limites. Mas nem todo mundo gosta desse tipo de experiência — seja por falta de tempo, paciência ou simplesmente por não curtir se frustrar várias vezes em tentativas infinitas. Em meio a isso, Silksong chamou atenção justamente pelo seu nível de desafio. Não demorou para surgirem reclamações sobre a dificuldade elevada de algumas seções do jogo e, principalmente, pelo fato de não trazer a opção de escolha de dificuldade. Certamente isso afasta jogadores mais casuais e aqueles que gostariam apenas de se aventurar sem grandes problemas.

Silksong se mantém muito fiel ao mundo construído, e assim como no primeiro jogo, a dificuldade faz parte da alma da obra. O game não teria o mesmo brilho se não fosse por esse aspecto: a dificuldade funciona como um elemento mecânico que condiz com a arte e a jornada proposta, tornando a superação dos inúmeros desafios ainda mais impactante.

Ainda assim, esse ponto reacende uma discussão que vem crescendo na indústria: jogos deveriam oferecer modos de dificuldade para todos os perfis, ou seguir a visão original dos desenvolvedores? Isso em paralelo com a popularização de jogos difíceis como os conhecidos “Souls” consolidou um nicho de jogadores bem grande, que dizem que a dificuldade é essencial para a experiência. Pessoalmente, acredito que jogos são obras de arte, e devem respeitar a proposta de quem os cria, sendo coerentes com a base de jogadores já estabelecida. Nesse caso, é importante não transformar uma jornada tão grandiosa em um passeio no jardim, nem em um obstáculo impossível, mas sim garantir que, mesmo difícil, o desafio seja justo.

Na minha experiência, a dificuldade de Silksong nunca pareceu desequilibrada ou exagerada. Na maioria das vezes, o segredo era explorar melhor, se fortalecer e voltar mais preparado para encarar os obstáculos. É um jogo que exige dedicação, mas recompensa cada esforço com aquela sensação única de conquista que só os títulos desse nicho conseguem entregar.

Hollow Knight: Silksong

No fim…

Hollow Knight: Silksong não é apenas uma continuação, mas a confirmação de que a Team Cherry conseguiu expandir sua fórmula sem perder a identidade. Fiarlongo é um mundo vasto, cheio de segredos, construído com um nível de cuidado raro de se ver hoje em dia. Jogar Silksong significa encarar um desafio constante, explorar mapas complexos e se surpreender a cada descoberta.

É difícil encontrar atualmente um jogo que seja tão consistente em sua proposta. Cada detalhe deixa claro o empenho e a paixão do estúdio, e isso se reflete em uma experiência completa, que prende do começo ao fim. Por isso, se aventurar em Fiarlongo não é só passar por mais um metroidvania: é mergulhar em um jogo marcante, daqueles que vão ficar na memória por muito tempo.

Criador de mundos, designer gráfico e entusiasta dos games. Tem mais horas de jogo do que de sono — e tá tudo bem.