A série Tales of, da Bandai Namco, sempre ocupou um espaço particular entre os JRPGs: nunca foi exatamente “de nicho”, mas também nunca alcançou o mainstream absoluto de gigantes como Final Fantasy e Dragon Quest. Ainda assim, foi ao longo das gerações que a franquia construiu um legado consistente, marcado por combates dinâmicos e tramas cheias de carisma.
E se existe um momento que simboliza a maturidade da franquia na era moderna, esse momento é Tales of Xillia. Lançado originalmente em 2011 no Japão e em 2013 no Ocidente, o RPG foi desenvolvido como um título comemorativo pelos 15 anos da série, carregando sobre os ombros a missão de modernizar as bases da franquia no PS3, tanto em narrativa quanto em gameplay.
Agora, mais de uma década depois, Tales of Xillia Remastered chega aos consoles atuais e ao PC com a intenção de resgatar um clássico que, por muitos anos, ficou “preso” ao catálogo do PS3. Para quem, como eu, está tendo contato com Xillia pela primeira vez, a experiência é um encontro curioso entre nostalgia e novidade, uma cápsula do tempo de uma era criativa muito específica da Bandai Namco, mas que ainda tem muito a oferecer aos jogadores modernos.
Uma dupla improvável, um destino compartilhado e um mundo em risco
A história de Tales of Xillia Remastered é movida por dois protagonistas cujos caminhos se cruzam por acaso, mas cujos valores os aproximam de forma inevitável.
Do lado humano, temos Jude Mathis, um estudante de medicina na capital real de Fennmont. Sua rotina pacata é interrompida quando o hospital recebe um número anormal de pacientes feridos por falhas em spirit artes — técnicas místicas que dependem da harmonia com os espíritos. Desconfiado de que algo maior está acontecendo, Jude segue suas suspeitas até o instituto militar da cidade.
Do outro lado, está Milla Maxwell, a Lorde dos Espíritos — uma figura quase divina, que observa o equilíbrio do mundo a partir de seu santuário nas montanhas. Quando ela percebe que incontáveis espíritos desapareceram súbita e misteriosamente, Milla conclui que uma catástrofe está prestes a ocorrer. Determinada a descobrir a causa, ela invade a mesma instalação militar para investigar.
É nesse ponto que seus destinos se entrelaçam. Jude e Milla unem forças para impedir uma ameaça que pode obliterar a própria coexistência entre humanos e espíritos no mundo de Rieze Maxia, uma terra em que cultura, política, crenças e magia se misturam de forma orgânica e fascinante.
Um sistema de batalha que continua estratégico

Mesmo após tantos anos, o sistema de combate de Tales of Xillia Remastered segue sendo um dos mais dinâmicos e criativos da franquia. A remasterização preserva sua essência, mas o é preciso tempo para se ter clareza em sua estrutura: o DR-LMBS (Double Raid Linear Motion Battle System).
Dois recursos fundamentais — AC e TP
Durante as batalhas, os personagens utilizam dois recursos principais:
- AC (Assault Counter): determina quantos ataques consecutivos podem ser realizados antes de precisar recarregar;
- TP (Technical Points): usado para artes especiais, feitiços e habilidades avançadas.
A gestão desses dois elementos, combinada com movimentação fluida e cancelamentos precisos, define o ritmo dos combates.
Link Mode – A alma da jogabilidade de Xillia
O destaque do sistema é o Link Mode, uma mecânica que permite vincular dois personagens durante a luta. Cada aliado oferece benefícios e suportes únicos, o que abre espaço para estratégias variadas:
- Leia pode roubar itens;
- Alvin quebra a guarda de inimigos resistentes;
- Rowen cria oportunidades para magias devastadoras;
- Elize oferece suporte e cura de forma eficiente.
Enquanto os personagens lutam em conjunto, o Link Gauge vai se enchendo, permitindo o uso dos Link Artes, técnicas combinadas poderosas que são o grande espetáculo do sistema.
Executar um Link Arte no momento certo, especialmente em combos longos, é uma das sensações mais recompensadoras que um JRPG dessa época pode oferecer.
Lilium Orb – Evolução flexível
O Lilium Orb funciona como um mapa de nós interconectados que desbloqueiam atributos, habilidades e passivas. Alimentado com GP (Growth Points) conquistados ao subir de nível, ele lembra sistemas clássicos como o Sphere Grid de Final Fantasy X, mas com a identidade visual própria da franquia Tales of.
Essa progressão permite personalizar cada membro da equipe de acordo com suas funções em batalha, oferecendo liberdade suficiente para adaptar estilos de jogo e experimentações criativas.
Uma segunda chance com mais acessibilidade e conveniência
O remaster não só atualiza o visual do jogo, como também adiciona diversas funcionalidades importantes.
Grade Shop desde o início
Agora, o jogador tem acesso ao sistema de Grade na primeira jogada, podendo ativar vantagens, acelerar crescimento e ajustar mecânicas da campanha sem esperar por um New Game+.
Destination Icons
Os objetivos principais da história recebem um ícone ★ com a distância até o destino. Isso facilita a navegação e evita perda de tempo em deslocamentos.
Enemy Encounter Toggle
É possível desligar completamente o encontro com inimigos no mapa, algo muito útil para quem quer explorar sem combate ou retornar rapidamente a regiões anteriores.
Autosave e melhorias de interface
Funções como salvamento automático, indicações de locais, ajustes de velocidade de corrida e refinamento de UI modernizam a experiência sem alterar sua essência.
Conteúdo adicional
Grande parte dos DLCs originais retorna, com exceção dos que dependiam de licenças de outras franquias, oferecendo roupas, bônus e recursos extras.
Visual aprimorado
Embora o remaster não transforme Xillia em um jogo moderno, há melhorias nítidas em resolução e nitidez, além de opções básicas como FPS limit, V-Sync e antialiasing.
Uma experiência que mantém seu valor, mesmo com limitações visuais

Apesar de todas as melhorias, o visual de Tales of Xillia Remastered ainda carrega resquícios do PS3. Alguns cenários permanecem mais borrados do que o ideal, e a modelagem dos personagens mostra sua idade em certos ângulos. A remasterização não reinventa o jogo graficamente, ela apenas o torna mais nítido e agradável.
Ainda assim, o charme artístico permanece forte. A direção de arte, o design de personagens e a atmosfera de Rieze Maxia continuam encantadores e funcionam muito bem mesmo hoje.
Afinal, vale a pena?
Tales of Xillia Remastered é, acima de tudo, um resgate. Depois de tantos anos preso a um console que há muito ficou para trás, Xillia volta com conforto, acessibilidade e respeitando sua essência.
Para os novatos, como eu, é uma boa forma de descobrir um dos jogos mais importantes da franquia. Quem já acompanha a franquia há bastante tempo, pode de revisitar um título que marcou época, agora com mais fluidez e opções de qualidade de vida, mesmo que a remasterização não traga melhorias tão significativas quanto a tecnologia atual nos permite.
O saldo final é positivo, mas é preciso lembrar que esse é um jogo voltado para jogadores que já estão, pelo menos, minimamente acostumados com JRPGs.











