Leon S Kennedy e Grace em destaque em Resident Evil Requiem com fundo frio e atmosfera tensa
Leon e Grace protagonizam Resident Evil Requiem em arte que reforça o tom sombrio e a tensão da história

Review | Resident Evil Requiem

Resident Evil Requiem desacelera a ação e aposta em um terror mais psicológico, resgatando a essência da franquia com uma experiência tensa e desconfortável do começo ao fim.

Depois de anos sem encostar na franquia, voltar para Resident Evil Requiem é quase como revisitar um trauma antigo.

O último contato tinha sido com Resident Evil 2, um jogo que sempre ficou marcado pela tensão constante, pela sensação de vulnerabilidade e pelo medo do desconhecido. E isso pesa aqui, porque a comparação é inevitável.

A grande questão é simples: depois de tanto tempo, Resident Evil ainda consegue provocar aquele desconforto?

A resposta é sim. Mas de um jeito diferente.


Primeiras impressões

Logo de cara, dá para perceber que a Capcom não quis fazer um jogo “agradável”.

Antes mesmo de começar, o jogo pede sua idade. Isso não está ali por acaso. Além de questões legais e de classificação indicativa, existe uma tendência atual de adaptar a experiência com base no perfil do jogador, principalmente em jogos com conteúdo mais pesado.

Outro ponto importante é a configuração de iluminação. Aqui não é só estética. Quanto mais escuro você deixa, mais o jogo te pressiona.

Os ambientes ficam mais difíceis de ler, os inimigos se escondem melhor e a sensação de insegurança aumenta muito. É uma escolha que impacta diretamente a experiência.

Esse já é o primeiro recado do jogo: você não está no controle.


História

A narrativa de Resident Evil Requiem segue a base clássica da franquia, mas com um foco mais psicológico.

A história acontece após os eventos de Resident Evil Village e coloca o jogador no meio de uma nova crise biológica.

Existe uma conspiração envolvendo a BSAA, organização que sempre foi vista como força de combate ao bioterrorismo. Aqui, começam a surgir sinais de que nem tudo é o que parece.

O jogo não gira apenas em torno de sobreviver a criaturas. Ele coloca em dúvida quem está realmente no controle da situação.

E tem um detalhe importante logo no início que já muda a leitura de tudo.

A forma como a contaminação é tratada aqui foge do padrão clássico da franquia. Não é aquela lógica direta e previsível que os fãs estão acostumados.

Existe uma quebra de expectativa, e o jogo usa isso para construir um clima constante de incerteza.

Você não sabe exatamente o que esperar — e isso pesa na experiência.

O medo não vem só do que está à sua frente, mas também do que pode estar acontecendo dentro dos próprios personagens.


Personagens

O jogo trabalha bem a ideia de vulnerabilidade.

Grace representa o lado mais humano da história. Ela não é uma combatente experiente, não tem controle da situação e reage mais do que age. Isso aproxima o jogador da experiência, porque você se sente exposto junto com ela.

Já Leon S. Kennedy traz o peso da franquia. Conhecido por jogos como Resident Evil 4, aqui ele aparece diferente.

Menos herói de ação, mais alguém carregando consequências. Mais sério, mais cansado.

A dinâmica entre os dois funciona bem. De um lado, alguém tentando entender o que está acontecendo. Do outro, alguém que já viu demais.

Personagem Grace em close com expressão tensa em ambiente escuro em Resident Evil Requiem
Grace aparece em destaque em Resident Evil Requiem, reforçando o clima tenso e psicológico do jogo

Gameplay

Aqui é onde o jogo deixa claro o seu posicionamento.

O ritmo é mais lento. O combate é mais limitado. Recursos são escassos e cada decisão importa.

A exploração volta a ter mais peso, com mapas mais conectados e necessidade real de atenção ao ambiente.

Não é um jogo que te empurra para frente o tempo todo. Ele te faz parar, pensar e muitas vezes hesitar.

Isso pode incomodar quem gosta de ação constante, mas reforça a proposta de tensão.


Atmosfera

Esse é o ponto mais forte do jogo.

A iluminação, o som ambiente e o design dos cenários trabalham juntos para criar uma sensação constante de desconforto.

Não é um terror baseado só em sustos. É um terror que se constrói aos poucos.

Silêncio, passos distantes, ambientes apertados. Tudo contribui para te deixar em alerta o tempo inteiro.

O jogo não quer te impressionar. Ele quer te incomodar.

Cena urbana chuvosa em Resident Evil Requiem com personagem caminhando por rua iluminada por letreiros
Cena de Resident Evil Requiem mostra ambiente urbano detalhado com clima tenso e iluminação noturna

Edição Deluxe

Jogando a versão Deluxe, dá pra ver que a Capcom manteve a tradição de entregar conteúdo extra sem mexer no equilíbrio do jogo.

A edição inclui trajes para os personagens, com variações como Filme Noir, Apocalypse e referências diretas a títulos clássicos como Resident Evil 4 e também ao universo recente.

Há também visuais alternativos para armas, que não mudam desempenho, mas reforçam a identidade visual.

Nos itens extras, aparecem amuletos como o Mr. Raccoon e o emblema da DSO, funcionando mais como bônus simbólicos.

Os filtros de tela e o pacote de áudio clássico são os destaques. Eles alteram a atmosfera de forma perceptível, principalmente quando combinados com a iluminação mais escura.

A edição ainda traz conteúdos desbloqueáveis ao longo da campanha, incluindo arquivos que fazem referência direta à era clássica da franquia, especialmente ao Resident Evil 2.

No geral, não muda a gameplay, mas aumenta a imersão.


Comparação com Resident Evil 2

Para quem vem de Resident Evil 2, como eu, a mudança é clara.

O clássico trabalhava a sobrevivência em meio ao caos. Requiem mantém isso, mas adiciona uma camada de desconfiança.

O medo não é só do que está no ambiente. É de não saber quem está por trás de tudo.

A sensação de vulnerabilidade continua, mas agora acompanhada de uma narrativa mais densa e menos direta.


Pontos positivos

  • Atmosfera extremamente bem construída
  • Sensação constante de tensão
  • Retorno a uma pegada mais próxima do terror clássico
  • Personagens mais humanos e menos caricatos
  • Exploração mais relevante

Pontos negativos

  • Ritmo pode ser lento demais para alguns jogadores
  • Combate limitado pode frustrar quem busca mais ação
  • Nem todas as partes da narrativa têm o mesmo impacto

Veredito

Resident Evil Requiem não é um jogo para agradar todo mundo.

Ele desacelera, tira o jogador da zona de conforto e aposta em uma experiência mais desconfortável e psicológica.

Para quem gosta do lado mais clássico da franquia, isso é um acerto.

Para quem espera ação constante, pode parecer um passo para trás.

No fim, fica claro que a Capcom não quis fazer um jogo mais popular. Quis fazer um jogo mais fiel à essência do que Resident Evil sempre foi.

E isso, por si só, já diz muita coisa.

Fundador do Bandas de Garagem, projeto que marcou a cena independente no Brasil. Apaixonado por games e cultura digital desde os anos 80, vive conectando música, tecnologia e boas ideias que viram projetos.