Yoko Taro usando sua icônica máscara de lua durante um evento da indústria de games.
LOS ANGELES, CA – 16 de junho: Yoko Taro, criador de NieR: Automata e diretor de novos projetos da Square Enix, aparece com sua tradicional máscara em evento da indústria.

Jogos adultos na mira: Steam e itch.io removem títulos NSFW após pressão de grupo ativista

Steam e itch.io removem jogos NSFW após pressão de grupo australiano; desenvolvedores alertam para censura e falta de transparência nas decisões.

Ações de um grupo australiano provocam mudanças nas plataformas e levantam debate sobre censura, liberdade criativa e limites da moderação digital.

Nos últimos dias, a comunidade gamer testemunhou uma movimentação intensa envolvendo as plataformas Steam e itch.io, que passaram a remover ou desindexar jogos classificados como NSFW (conteúdo adulto). As ações aconteceram após pressão da organização australiana Collective Shout, que contatou processadoras de pagamento como Visa e Mastercard pedindo o bloqueio de transações envolvendo determinados jogos.

A mudança afetou milhares de títulos independentes, incluindo visual novels, simuladores e jogos experimentais — muitos dos quais não apresentavam conteúdo sexual explícito, mas foram classificados como NSFW por critérios amplos ou preventivos. Além disso, vários desenvolvedores relataram que não foram avisados previamente, e seus jogos desapareceram de listagens e buscas nas plataformas, dificultando a descoberta e prejudicando vendas.


O que é o Collective Shout?

O Collective Shout é uma organização australiana fundada em 2009, voltada ao combate da sexualização de crianças, exploração na mídia e objetificação feminina. Atua principalmente através de campanhas públicas, contato com empresas e pressão sobre instituições financeiras. No caso mais recente, a entidade argumenta que jogos com conteúdo de abuso sexual, incesto fictício e exploração infantil vinham sendo disponibilizados sem controle adequado, e que a responsabilização das plataformas era urgente.

Embora algumas dessas denúncias envolvam casos reais de jogos com conteúdo problemático, desenvolvedores e críticos alertam que a campanha acabou impactando uma variedade muito maior de títulos, inclusive obras com temas adultos artísticos, mensagens sociais ou representações LGBTQIA+.


A fala de Yoko Taro e o debate sobre censura

O criador de NieR: Automata, Yoko Taro, se posicionou de forma crítica ao episódio. Em postagens feitas anteriormente (2024) e resgatadas agora pela imprensa internacional, ele comentou:

“Controlar processadoras de pagamento é o mesmo que censurar a liberdade de expressão de outro país.”

Para Taro, o risco não está apenas na restrição a conteúdos adultos, mas no poder que entidades privadas têm de ditar o que pode ou não ser distribuído digitalmente, sem passar por leis ou processos democráticos. Segundo ele, esse tipo de ação representa uma ameaça estrutural à liberdade criativa e ao acesso à cultura global.


Falta de aviso e alcance das medidas

Um dos pontos mais criticados por desenvolvedores foi a ausência de aviso prévio. Muitos relataram que seus jogos desapareceram do ar ou foram marcados como NSFW sem explicação ou critérios claros. Isso afetou até obras com estética de anime, foco narrativo ou temas sensíveis, mas sem nudez ou apelo sexual direto.

A plataforma itch.io, conhecida justamente por abrigar produções alternativas e experimentais, sofreu com a remoção de aproximadamente 20 mil títulos adultos, de acordo com a imprensa australiana. Já na Steam, casos isolados de jogos com temas polêmicos passaram a ser removidos após mudança de diretriz aplicada de forma discreta.


Onde termina a proteção e começa a censura?

O episódio levanta questionamentos sobre como equilibrar a proteção de públicos vulneráveis com o direito à liberdade criativa. Enquanto o Collective Shout defende que seu objetivo é proteger crianças e combater abusos, críticos afirmam que ações generalizadas, sem análise individual, acabam gerando censura injusta, afetando artistas e criadores legítimos.

Além disso, o uso de pressão financeira como instrumento regulador levanta preocupações sobre transparência, governança e autonomia cultural. Para muitos, o debate sobre conteúdos sensíveis deveria ser público, legal e transparente — não decidido nos bastidores por empresas de pagamento ou grupos de interesse.

Fundador do Bandas de Garagem, projeto que marcou a cena independente no Brasil. Apaixonado por games e cultura digital desde os anos 80, vive conectando música, tecnologia e boas ideias que viram projetos.