Se há algo incontestável sobre os videogames, é a capacidade que eles têm de nos surpreender. Às vezes de forma positiva, com narrativas marcantes e mecânicas inovadoras; outras vezes de maneira negativa, quando caem na mesmice ou em práticas questionáveis da indústria. No meio disso, nós, jogadores, precisamos escolher em quais jogos investir tempo e dinheiro — e torcer para que a experiência valha a pena.
Foi nesse dilema que me vi quando lançaram o primeiro Death Stranding, descrito por muitos como “um jogo que não é para todos”. Chamado de “simulador de correios” e cheio de metáforas e esquisitices, era um título que ou conquistava de vez, ou afastava completamente. Na época, me afastei das polêmicas e decidi não jogar. Mas a curiosidade ficou.
Com o tempo, Death Stranding ganhou status de cult e se firmou como uma obra importante o bastante para receber uma sequência. Quando Death Stranding 2: On the Beach foi anunciado na TGA de 2022, a empolgação falou mais alto e resolvi dar uma chance ao primeiro jogo. O resultado foram mais de 120 horas de gameplay até a platina — e o arrependimento por ter demorado tanto.
O que encontrei foi uma experiência única: contemplativa, diferente de qualquer outra e cheia de sentimentos difíceis de explicar. Não é um jogo perfeito, mas transmite uma mensagem poderosa. No fim, entendi que aquele “jogo que não é para todos” acabou sendo exatamente o jogo feito para mim.
Toda essa introdução foi só por um motivo: é impossível falar de Death Stranding 2 sem puxar o primeiro jogo pra conversa. Além de ser uma continuação direta da história de Sam Bridges, e expandir esse universo maluco e fascinante que o Kojima criou, Death Stranding 2: On the Beach parece seguir, de certa forma, um caminho oposto ao do seu antecessor, um caminho que, à primeira vista, agrada mais e atrai mais novos jogadores a experienciar o game.

Meu Deus do céu, Kojima o que você fez?
Minha primeira reação ao jogar Death Stranding 2 foi um completo choque. O que a Decima Engine entrega nesse jogo é realmente algo especial. Cenários cheios de detalhes, iluminação impecável, a geometria do terreno é densa e muito bonita, e é absurdo o fotorrealismo nas expressões dos personagens durante momentos-chave do jogo. Além das cutscenes, tudo está num nível que realmente impressiona. E o melhor: não é só bonito de ver, o jogo roda liso, com modos estáveis de 30fps e 60fps. É nítido o salto em relação ao primeiro jogo.
Simulador de correios, só que não.
Na jogabilidade, a essência permanece: carregar entregas, reconstruir laços e tentar reconectar um mundo destruído. Só que agora isso acontece em escala maior. A aventura começa no México e, mais tarde, se desenrola na Austrália, dando uma variação de biomas muito mais ampla do que tínhamos no primeiro jogo. Não é só trocar de cenário: o clima virou parte ativa do gameplay. Além da já conhecida chuva temporal, que acelera a degradação de tudo o que toca, agora temos tempestades de areia que reduzem a visibilidade, terremotos que podem mudar a rota, avalanches capazes de engolir trilhas inteiras e até enchentes repentinas. Cada entrega pode se transformar em um desafio imprevisível, exigindo planejamento e improviso. Isso dá uma nova energia à exploração, tornando a travessia algo menos monótona e muito mais tensa e envolvente.
Outra mudança que se destaca é o combate. No primeiro jogo ele estava lá, mas acabava sendo visto como repetitivo. As lutas contra mulas ou encontros com EPs muitas vezes soavam como um mal necessário, algo que quebrava o ritmo, mas não encantava.
Death Stranding 2: On the Beach muda esse panorama de forma nítida. Agora, o combate tem muito mais peso. Os inimigos estão mais variados, as situações surgem de maneira mais orgânica e Sam tem à disposição novas ferramentas e formas de lidar com os obstáculos.
O ciclo de dia e noite influencia diretamente as investidas em acampamentos: de dia, você corre o risco de enfrentar grupos inteiros bem armados; de noite, a furtividade ganha mais espaço. Os controles estão mais responsivos, facilitando tanto o stealth quanto a agressividade de um confronto direto. Até os encontros contra os EPs ficaram diferentes, mais dinâmicos, e existe uma mecânica especial em batalhas contra gigantes que é simplesmente fantástica. Dá pra sentir que a Kojima Productions ouviu as críticas do primeiro jogo e trabalhou para tornar a experiência mais divertida, sem perder a identidade.

Na praia.
A história segue fiel ao estilo Kojima: complexa, carregada de metáforas e com espaço para interpretações, mas, desta vez, mais direta e acessível. É emocionante sem deixar de lado o surrealismo e os momentos que te fazem pensar “só o Kojima mesmo”. O jogo continua trazendo personagens que carregam muito peso narrativo, cenas que surpreendem e um enredo que não economiza em reviravoltas. Ainda assim, há uma sensação de que a narrativa é mais clara, com menos dispersão e mais foco nos temas principais. É um equilíbrio interessante: a maluquice ainda está lá, mas com mais objetividade.

E, claro, a trilha sonora. Poucos jogos conseguem transformar música em elemento narrativo como Death Stranding. Aqui, a seleção continua excelente, mesclando faixas licenciadas com composições originais que ampliam o peso emocional de cada passo. No entanto, vale uma crítica: no primeiro jogo, as músicas surgiam em momentos tão bem encaixados que transformavam um simples percurso em uma experiência épica.
Em On the Beach, essa sincronia nem sempre acontece. Algumas faixas entram tarde demais ou cortam cedo, tirando um pouco da magia. Ainda assim, há vários momentos musicais que são inusitados e perfeitos, como na introdução no México, onde a trilha não só acompanha a jornada como muda o ritmo de acordo com o avanço até o destino, criando uma sensação única de imersão. São instantes assim que mostram a força dessa combinação entre jogabilidade e música.
Afinal, vale a pena?
No fim, Death Stranding 2 – On the Beach é uma obra-prima moderna. Ele pega os pilares do primeiro jogo, corrige muitas das críticas, expande o universo, traz novidades mecânicas importantes e mantém a essência única que tornou a franquia especial. É um jogo que exige do jogador, mas que recompensa cada hora investida com momentos de pura contemplação, tensão e emoção. Para quem já era fã, é obrigatório. Para quem ficou de fora, pode ser a chance perfeita de se reconectar.











