Quando era mais novo, antes de trabalhar e ter a agenda engolida pelo mundo adulto, eu acompanhava a NFL religiosamente. Madrugadas de domingo, RedZone na TV, e uma paixão por táticas que me levou a “brincar de coach” nos videogames. Lembro de ter jogado Madden NFL 12 no PS2 (se a memória não me trai), repetindo jogadas até decorar leituras e hot routes. Depois, afastei-me por anos. Madden NFL 26 foi meu retorno ao jogo, e, aos poucos, ao próprio futebol americano. Voltei desconfiado, esperando aquele velho “talvez ano que vem” que paira sobre séries anuais. Felizmente, o 26 tem o raro gosto de virada de placa… embora a execução ainda tenha tropeços que pesam na balança.

Onde Madden 26 acerta em cheio
A calibragem de velocidade e inércia finalmente caiu num meio-termo feliz entre o arcade nervoso e a cadência mais pesada que marcou a série por anos. Rotas “quebram” com mais naturalidade, o contato em catch tackles e stiff arms dá aquele estalo. A defesa também ganhou armas úteis: zonas personalizadas, stunts, twists e ajustes de pressão, tudo acessível no pré-snap sem virar reconfiguração de planilha. A EA descreve parte disso no material oficial, junto do Football Weather, que muda a partida de verdade: nevasca limita visibilidade, piso molhado aumenta fumbles e a neve vai marcando o gramado ao longo do jogo. É imersivo e, melhor, impacta decisões táticas.
Apresentação de TV que finalmente lembra a NFL
Pela primeira vez em muito tempo, Madden tem cara e ritmo de transmissão. Pacotes distintos para domingos, segundas e quintas, runouts caprichados e show do intervalo com Scott Hanson pontuando highlights do seu Franchise dão identidade às semanas. A própria página do jogo já destaca tradições de times (como o Skol do Vikings e o show de luzes do Ravens), e ver isso “ao vivo” faz diferença.
Skills Trainer: finalmente um tutorial de verdade
Para veteranos e novatos, o novo Skills Trainer é o onboarding que a série devia há anos. Ele explica mecânicas de forma clara, amarra ratings ao que acontece em campo e até corrige vícios antigos (como “superchutar” field goals e perder distância). Publicações internacionais também apontaram o trainer como um dos maiores acertos do ciclo, e assino embaixo.
Franchise: o coração do jogo, enfim, volta a bater forte

Se você, como eu, mede Madden pelo Franchise, aqui está o salto. Sai a velha árvore de habilidades e entram perks equipáveis para técnico e coordenadores, que você escolhe semanalmente de acordo com o adversário. Somam-se os Playsheets, pequenas folhas táticas que destravam formações (como 4–2–5) e conceitos ofensivos específicos sem depender de playbooks customizados. E a cereja do bolo é o Wear & Tear: um sistema que registra pancadas e carga de trabalho ao longo da temporada. Exagerar no bell-cow pode render lesões e queda de atributos; administrar treino e recuperar atletas vira parte do xadrez.
O halftime e os recaps semanais com narração contextual transformam a temporada em uma narrativa contínua. Há também relatórios de scouting mais úteis e sugestões de jogadas “no tom do treinador” (via machine learning) que explicam o porquê de cada chamada. Tudo isso ajuda a aprender sistemas novos e mantém a liga com cara de liga, não de menu.
A EA resolveu dobrar a aposta nos minigames do Training Camp, e aqui mora minha maior bronca. A rotação ficou mais limitada e alguns desafios, como o Bucket Drop ou o DB Battle, soam mais punitivos do que didáticos. Quando virei rotina de temporada, confesso que comecei a evitá-los ou a buscar atalhos via desenvolvimento de elenco. O sistema de habilidades semanais é envolvente, mas a execução do “pré-temporada gamificada” precisa de ajustes.
Superstar e Ultimate Team
A ideia de relacionamentos com técnicos, colegas e staff fora do campo é boa, cutscenes estão bem produzidas e há momentos divertidos… porém, as decisões frequentemente são binárias e óbvias, e a progressão continua dependendo de um circuito de minigames que não empolga por muito tempo. Evolução, sim; o “modo da vida inteira”, ainda não.
Ultimate Team é polido, tem comparador instantâneo de cartas e alguns auxílios de montagem de elenco que agilizam a vida. Mas o objetivo permanece o de sempre: levar você à loja. No próprio Steam, o jogo é listado com compras internas e itens aleatórios, o que volta a levantar a questão de monetização agressiva. Se você curte a dança de cartas e o meta online, há conteúdo; se não, melhor focar no Franchise.
O que muda (ou não) para quem joga no Brasil
Madden NFL 26 não oferece interface nem legendas em PT-BR; apenas inglês tem interface, áudio e legendas. Para quem está voltando agora, estudar tática e navegar por camadas de menus em outro idioma pode ser barreira real, especialmente no Franchise e no novo Skills Trainer.
Há cross-play entre PS5, Xbox Series X|S e PC; a versão de Nintendo Switch 2 ficou de fora desse pool de matchmaking. Também existe disponibilidade no Amazon Luna, útil para quem quer testar na nuvem (não disponível oficialmente no Brasil).
Afinal, vale a pena?
Depois de anos de “ajustes pontuais”, Madden NFL 26 finalmente parece um projeto coeso. Dentro de campo, a combinação de velocidade bem calibrada, defesa com mais ferramentas, lançamentos situacionais e clima que pesa de verdade dá um sabor novo a cada drive. Fora dele, Franchise recebeu uma injeção de profundidade: perks semanais, playsheets, Wear & Tear e apresentação televisiva fazem cada semana parecer um episódio da temporada.
Ainda assim, é impossível ignorar os menus lentos, minigames de Training Camp que mais irritam do que ensinam, e a ausência total de PT-BR — ponto que continua afastando a base brasileira. Some a isso o MUT que segue preso ao loop de microtransações, e a nota não sobe mais. É o melhor Madden em muito tempo, mas ainda não é o Madden definitivo.











