Existem jogos que marcaram uma geração por pura insanidade. Painkiller, lançado em 2004 pela People Can Fly, é um deles. Na época, o game era o “filho rebelde” dos shooters de arena, uma espécie de Doom gótico que entregava velocidade, sangue e guitarras pesadas em doses industriais.
Ao revisitar o título clássico recentemente, percebi como Painkiller capturava o espírito dos boomers shooters: simples na proposta, viciante na execução. E é dentro dessa memória que encaro o reboot de 2025, agora sob a tutela da Ashnar Studios e publicado pela Saber Interactive.
O novo Painkiller tenta trazer o inferno de volta, mas com um novo propósito, o cooperativo. A pergunta é inevitável: essa modernização mantém a essência ou dilui o caos que definia o original?
Do inferno solitário ao cooperativo celestial

A nova versão de Painkiller propõe uma mudança drástica na estrutura. Agora, o jogador não encarna Daniel, mas um grupo de quatro humanos presos no purgatório. Cada um busca redenção enquanto tenta impedir o demônio Azazel de expandir o inferno sobre a Terra.
Os personagens Ink, Void, Sol e Rock, representam arquétipos distintos: da punk gótica à sacerdotisa steampunk, cada um com habilidades e atributos próprios.
Essa variedade traz uma camada estratégica interessante, principalmente no modo cooperativo. As habilidades únicas (como aumento de dano, regeneração acelerada de energia, mais munição ou resistência extra) se complementam durante as incursões, criando espaço para sinergia entre estilos de jogo.
O problema é que, ao focar tanto no multiplayer, Painkiller (2025) acaba diluindo o que tornava sua narrativa especial. O peso existencial e a tragédia espiritual do original se perdem em meio a piadinhas e diálogos superficiais. O inferno, aqui, é mais uma arena de combate do que um tormento filosófico.
Gameplay: o caos continua
A jogabilidade é o ponto onde o jogo mais brilha, e, ao mesmo tempo, mais frustra.
Painkiller (2025) é um FPS arcade acelerado, onde reflexos e movimentação são tudo. Dashes, ganchos, plataformas impulsoras e duplas armas criam um ritmo frenético que lembra os melhores momentos de DOOM Eternal.
As armas continuam sendo o verdadeiro espetáculo. De disparos de shurikens a lasers devastadores, o arsenal é criativo e visualmente insano. Cada arma possui dois modos de disparo, incentivando experimentação e variedade nos combates.
Além disso, o jogo resgata o sistema de cartas de tarô, agora com 44 opções disponíveis. Elas funcionam como um sistema de perks, permitindo buffs temporários de dano, resistência ou movimentação. É um toque estratégico que dá personalidade ao caos.
Coop infernal: diversão em grupo, confusão em massa
A ideia de um Painkiller cooperativo soa fantástica no papel, e de fato rende bons momentos com amigos.
Mas a execução é irregular. Há fases em que a quantidade de inimigos é tão baixa que a ação termina antes de você entrar nela, e outras em que a tela se transforma em uma tempestade de partículas, explosões e números, dificultando até enxergar o que está acontecendo.
O level design é simples, mas os gráficos são muito bons. Algumas arenas são visualmente impressionantes e bem construídas; outras soam um pouco genéricas. Como são apenas nove missões no lançamento, essa irregularidade impacta o fator replay, principalmente quando certas fases se tornam mais um teste de paciência do que de habilidade.
Curiosamente, os bots funcionam muito bem para quem quiser jogar offline. Eles seguem ordens, ajudam no combate e raramente atrapalham. É um alívio saber que a IA, nesse caso, é um bom parceiro, e eu diria que até mais confiável que alguns jogadores aleatórios do matchmaking.
Trilha sonora: o retorno do heavy metal apocalíptico
Se existe um ponto em que Painkiller (2025) acerta em cheio, é na trilha sonora.
O heavy metal volta com força total, guitarras distorcidas, batidas pesadas e uma energia contagiante que combina perfeitamente com a estética gótica e apocalíptica do jogo.
Cada confronto parece uma jam infernal, e a música ajuda a manter o ritmo e a adrenalina. É um dos poucos elementos que mantém viva a essência do original.
Chefes, cenários e a estética da danação

Visualmente, Painkiller impressiona. A direção de arte mistura horror gótico com fantasia sombria, criando ambientes que parecem templos demoníacos, cemitérios vivos e fortalezas apocalípticas.
As boss fights são o ponto alto visualmente, mas, no cooperativo, perdem impacto. A coordenação entre três jogadores costuma derreter os chefes com facilidade.
Ainda assim, há algo hipnótico em ver o purgatório desabar sob luzes vermelhas e acordes distorcidos. O jogo é bonito e estiloso.
Conclusão: um retorno divertido, mas sem redenção
Painkiller (2025) tenta reinventar o inferno para uma nova geração, mas acaba entregando algo mais terreno do que celestial. Sinto que o jogo não trouxe tanto do que tinha no passado, restando apenas a temática e as armas.
É divertido, frenético e visualmente marcante, mas carece de peso narrativo e profundidade no combate. O cooperativo diverte, principalmente em curtas sessões com amigos, mas o jogo não sustenta uma experiência longa ou memorável.
Como reboot, ele é um bom aquecimento. Como sucessor espiritual, ainda falta fogo. No final, é uma experiência agradável, afinal, não tem como ser ruim matar demônios.











