Capa do Jogo Mixtape

Review | Mixtape

Mixtape te fará viajar no tempo e ser carregado por uma trilha sonora perfeita para o momento. Não é pra todos, mas com sorte será para você também.

Inspirado pelo jogo, irei recomendar músicas que combinem com cada parte da Review! Coloque para ouvir e espero que curta!

Tudo fica melhor com música
Lovely Day – Bill Withers

Mixtape é uma obra curiosa… ela aponta, atira e acerta, mas justamente naquilo que ela mirou. Eu pensava que era um jogo semelhante a outros como: Life is Strange, Tell Me Why e até os jogos The Dark Picture Anthology, mas eu não imaginava que ele faria uma curva diferente, talvez problemática, mas que entregaria uma excepcional imersão a uma narrativa envolvente e muito musical. 

Como músico, compositor e amante de música em geral, eu não só fui captado pela ambiência musical do jogo, como fui pego pela mão e apresentado ao poder que uma trilha sonora pode dar a uma história quando escolhida com perfeição “pela protagonista do jogo, Stacey Rockford”.

Eu não lembrava a princípio, mas já havia jogado um jogo da desenvolvedora Beethoven and Dinosaur, que é o Artful Escape. Jogo que também é protagonizado pela música, tem uma duração menor do que o comum e que aposta na imersão, captação pelo charme e um ótimo impacto artístico. 

Screenshot - Mixtape - Stacey flutuando
Rockford flutuando na calçada. A música pode fazer você ir para outros lugares.

O clube dos 3
Don’t You (Forget About Me) – Simple Minds

Em Mixtape acompanhamos a história de Stacey Rockford. Uma jovem que terminou o ensino médio e está indo para Nova York viver seu sonho de se tornar uma Supervisora Musical, que é o profissional que faz a curadoria de todas as músicas que passam por alguma obra artística. E que curiosamente é o que faz de Mixtape, um espetáculo. 

Além de Rockford, iremos assistir em paralelo a história de Slater e Cassandra, seus dois melhores amigos. Juntos, os três formam um trio rebelde, um tanto delinquente, deslocado e punk. Uma típica história noventista de sessão da tarde que longe de ser algo ruim, vai junto com a soma de suas escolhas narrativas, trazer nostalgia e mensagem. 

O jogo se passa no último dia de Rockford em Blue Moon Lagoon e como os três amigos irão deixar essa última noite na história. Mas como nem tudo são flores, o jogo vai trazer o drama dos amigos de Rockford em aceitar que sua amiga está indo embora e que terão que cancelar planos feitos pelos três, além de seus dilemas pessoais que vão de problemas com os pais a traições e identidade pessoal. 

Screenshot do jogo Mixtape - O trio
Slater, Rockford e Cassandra

Todos fomos adolescentes
Age Of Consent – New Order

Antes de fazer algumas analogias e reflexões de identificação, temos que lembrar que o jogo se passa numa realidade norte americana, aparentemente de classe média e diferente de uma realidade comum brasileira. Mas mesmo assim, podemos pluralizar e generalizar alguns sentimentos e experiências que são canônicas da vida de um jovem colocando o pé na vida adulta.

Em algum momento, ou em um lapso de tempo, iremos nos identificar com alguma característica de um dos três personagens. Seja pela intensidade de Rockford, a anarquia de Slater ou os problemas familiares de Cassandra. Mixtape vai apresentar esses conflitos de maneira honesta e não amenizadora, fazendo com que o jogador nem sempre concorde com o rumo da história, mas entenda as consequências e realidades que simplesmente fogem do nosso controle. 

Os beijos, conversas fúteis, segredos, flertes e uma quase libertinagem, se não foram temas principais de algumas conversas quando você era um adolescente, talvez você estivesse pensando mais filosoficamente sobre a vida, se perguntando o que seria, como seria e para onde iria. E em Mixtape temos as duas conversas, um perfeito equilíbrio daquilo que é fútil e puramente recreativo e do que é discutível e problemático. O que faz com que o jogo seja útil para a reflexão não só daqueles que hoje são jovens ou até mesmo mais velhos que precisam refletir sobre o passado, mas já que o jogo vem de uma veia noventista, por que não pensar que este olhar seria útil e importante para aqueles que virão ou já são pais de jovens adolescentes espinhudos?

Screenshot do jogo Mixtape- Slater no quarto da Stacey
Slater no quarto da Rockford

Que música conta a sua História?
Inbetween Days – The Cure

Mixtape já entrega de cara sua proposta. Lembra que falei sobre mirar, apontar e atirar? É justamente isso que quero dizer. O jogo da Beethoven e Dinosaur, publicado pela Annapurna Interactive é uma bola de canhão apontada para aqueles que não vivem sem uma bela trilha sonora durante a vida. O jogo começa quebrando a 4° parede para mostrar que iremos, durante toda a gameplay, ser acompanhados de uma trilha sonora escolhida a dedo. Dando ênfase e tendo um ótimo gosto musical para roteirizar toda a jornada do trio de amigos, que irão dançar e interagir com a trilha sonora quando puderem. 

Não é só uma trilha sonora. É um personagem a mais no jogo. São músicas conhecidas, licenciadas e que certamente você já ouviu alguma, principalmente se for alguém que nasceu até o final dos anos 90. É o ponto forte do jogo, que somada a uma história simples, ambientação incrível e um gráfico fabuloso, vira um espetáculo visual “gameficado”. 

Screenshot do jogo Mixtape - Fita cassete sendo rebobinada
Fita cassete sendo rebobinada com um lápis. Se você já fez, eu tenho uma coisa pra te dizer…

Proposta da mecânica
Disorder – Joy Division

Precisamos falar de sua mecânica com mente aberta e entendendo sua proposta. O jogo não apresenta a possibilidade de derrota ou fracasso em qualquer tipo de interação ou minigame do jogo. Diferente também de Life is Strange, por exemplo, não temos múltiplas escolhas que levam a diferentes finais ou consequências específicas. Mixtape é linear e inflexível quanto a sua resolução. 

As mecânicas são limitadas ao controlar os personagens andando de skate, correndo pelos cenários e interagindo com objetos e pessoas. Além de seus minigames que são apresentados de tempos em tempos, ao vivermos uma lembrança de Rockford.

Então é necessário ter ciência que a proposta do jogo não é te desafiar, muito menos criar a sensação de derrota ou vitória. Mas sim apresentar e fazer parte do momento da vida daqueles personagens. Usar o videogame como veículo para contar uma história e nos atingir com música e carisma. E não é por isso que ele deixa de ser um jogo. Afinal, se não apontamos botões, guiarmos o personagem e completarmos esses minigames, nunca saberíamos como Rockford, Slater e Cassandra terminaram o último dia deles juntos. 

Além desta problemática, o jogo trouxe também a discussão sobre quanto de duração um jogo deve ter. Mixtape pode no máximo entregar 4 horas de gameplay, mas pode também ser finalizado em menos de 3 horas. A partir daí, a discussão sobre precificação baseada em tempo de jogo esquentou. 

Poderíamos entrar em várias questões que problematizam jogos serem grandes demais ou pequenos demais baseados em seu preço. Mas acho que a grande maioria dessas problematizações cabem em jogos que não entregam qualidade ou aplicam mal suas mecânicas de forma que o aproveitamento não corresponda ao tempo gasto, seja muito ou pouco tempo. Então, resumindo a Mixtape, o jogo entrega qualidade e dentro da sua proposta, faz bom uso das mecânicas, para que com essas 4 horas de gameplay, o jogador saia contente, envolvido e cativado pelos seus elementos.

Screenshow de Mixtape - Protagonistas no carrinho de mercado
Rockford, Slater e Cass dentro de um carrinho de supermercado

Sou todo ouvidos
Heroes – David Bowie

Enxergo Mixtape como uma celebração cuidadosa à nostalgia, ao poder de uma boa trilha sonora, ao saudosismo em dose certa e a não insignificância da transição do adolescente para o mundo adulto pela visão de quem a vive. Por mais que para mim, seja um jogo incrível, cativante e envolvente, para muitos será injogável pelo simples fato de não ser o comum videogame, com algo para desafiá-lo e recompensá-lo por apertar botões na hora certa ou derrotar um chefe. E tudo bem! Algumas mensagens só vão chegar para as pessoas quando o veículo certo para elas as trazerem. E isso não dita o que é ruim ou bom, mas sim como a diversidade da comunicação também está dentro do videogame. E esse fato só traz mais e mais jogos para nós. E isso é muito metal! 

Screenshot do jogo Mixtape com os protagonistas no telhado
Rockford, Slater e Cass em cima de um telhado comemorando

Músico, compositor e produtor audiovisual. Desde cedo imerso e ativo na cena independente, onde a arte me é morada. Cresci nos sons, imagens e no universo dos videogames, que seguem influenciando vida. Consumidor e entusiasta da cultura pop em todas as suas formas.