Preview de A.I.L.A.: mergulhamos no terror cyberpunk do novo jogo da Pulsatrix Studios

Jogamos esse Survivor Horror brasileiro e o resultado foi assustador.

A.I.L.A – Pulsatrix Studios

O desenvolvimento de jogos independentes no Brasil vem se consolidando como uma cena vibrante e cheia de criatividade. Nos últimos anos, projetos nacionais ganharam visibilidade lá fora, provando que é possível competir em qualidade artística e técnica com produções de maior orçamento. Dentro desse movimento surge A.I.L.A., novo título da Pulsatrix Studios, estúdio já reconhecido por seu trabalho em Fobia – St. Dinfna Hotel.

O projeto nasceu de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, e desde o início chamou atenção pela proposta ousada: um survivor horror em primeira pessoa que mescla estética realista, ambientação opressora e narrativas que transitam entre o cyberpunk e o terror psicológico. Além disso o desenvolvimento conta com a presença de MaxMRM, criador de conteúdo de games e figura ativa na comunidade gamer brasileira. Aqui, ele atua como diretor criativo, colaborando não apenas com a experiência e visão artística de A.I.L.A., mas também estreita a ponte entre os desenvolvedores e o público que consome esse tipo de experiência. O resultado é um projeto que nasce já carregando uma forte identidade dentro do gênero survivor horror.

A.I.L.A – Pulsatrix Studios

Mergulhando em sua própria mente

A.I.L.A. se passa em um mundo cyberpunk, onde mega corporações controlam praticamente todos os aspectos da sociedade — da inteligência artificial aplicada em tarefas domésticas até grandes projetos de exploração espacial. É nesse contexto que acompanhamos um protagonista nada heroico: um beta tester de jogos em realidade virtual, um sujeito comum, vivendo em um apartamento bagunçado, cuja única companhia é o seu gato de estimação, Jones.

Em mais uma noite de trabalho aparentemente comum, ele recebe um novo protótipo para testar: a A.I.L.A. (Inteligência Artificial para Aplicações Lúdicas). A proposta dessa IA é diferente de qualquer outra: ela analisa o comportamento do jogador em tempo real e cria experiências personalizadas de terror psicológico, simulando cenários que parecem feitos sob medida para provocar desconforto, medo e tensão. Assim, cada simulação se transforma em uma descida imprevisível a diferentes formas de horror — de ambientes sufocantes e perturbadores a situações de violência explícita — colocando o jogador frente a frente com seus próprios limites.

A.I.L.A – Pulsatrix Studios

Primeiras impressões

Logo de cara, fiquei surpreso positivamente com a qualidade do que vi na tela. As texturas, as animações, a forma como a iluminação foi trabalhada entregam um visual que não só impressiona, mas também reforça a proposta do jogo. Tudo aqui parece pensado para te colocar dentro da experiência, e o resultado é um nível de imersão que realmente faz diferença em um survivor horror. O visual mais fotorrealista amplifica esse impacto, e em alguns momentos de violência gráfica mais explícita eu simplesmente fiquei atônito, com aquela reação genuína de soltar um “WTF?” sem nem perceber.

A ambientação é outro ponto que me chamou muita atenção. Existe uma diferença clara entre os cenários: no “mundo real”, você sente esse futuro sombrio, tecnológico e opressor; já nas simulações criadas pela A.I.L.A., a coisa muda completamente, e a equipe aproveita para brincar com várias vertentes do horror. Teve momento que me senti dentro de um episódio de Além da Imaginação misturado com Jogos Mortais e até um pouco de O Iluminado. Em outro trecho, a sensação era de estar num slasher clássico de cabana, bem no estilo de A Morte do Demônio. E como se não bastasse, o jogo ainda traz referências que remetem aos Resident Evil mais recentes, principalmente nas passagens mais tensas, de exploração em ambientes fechados e carregados de suspense, além da ação e dos puzzles de cenário. Vale destacar também que o jogo conta com localização em português e inglês, incluindo dublagem, legendas e menus, o que ajuda muito na imersão. Apenas alguns documentos e elementos de cenário aparecem apenas em inglês, mas mesmo nesses casos há interação que fornece a tradução.

A.I.L.A – Pulsatrix Studios

Jogabilidade e controles

No geral, a jogabilidade me pareceu bem intuitiva, não tive grandes dificuldades para entender os comandos e logo já estava ambientado ao que o jogo pedia. Mas, em alguns pontos, a escolha dos botões me deu um nó na cabeça, principalmente quando a tensão bate forte. Um exemplo claro é com a corrida do personagem: no controle, o ato de ter que apertar o analógico esquerdo [R3] pra disparar na fuga não é muito prático quando o desespero toma conta, e isso me atrapalhou em momentos que eu precisava fugir. Outro detalhe que pode incomodar é a gunplay: o jogo utiliza os botões traseiros do controle, [RT] para mirar e [LT] para atirar, algo bem padrão em shooters, porém aqui se você não tiver a arma empunhada, o [RT] utiliza um item do inventário, e em algumas vezes me confundi e utilizei o item ao invés de atirar, para quem é mais ansioso ou desatento igual eu, é fácil cair nessa armadilha. Claro que existem opções de remapeamento ‘presetados’ no menu, e jogadores mais acostumados com esse tipo de experiência talvez nem liguem para esse detalhe, mas eu acredito que o ideal é não precisar se preocupar com isso, independente do perfil de jogador. Jogando no teclado e mouse, a experiência foi bem mais fluida, mais natural, e ali não tive nenhum problema para reagir quando o jogo exigia respostas rápidas.

A.I.L.A – Pulsatrix Studios

O level design é muito competente na sua entrega. São bem construídos e acrescentam a toda atmosfera das histórias ali contadas, os ambientes possuem diversos fragmentos sobre aquele mundo, há documentos espalhados que ajudam a entender melhor a narrativa e até a resolver alguns puzzles, que aliás me agradaram bastante. Eles não são absurdamente difíceis, mas estão muito bem inseridos no contexto de cada cenário, fazendo sentido dentro da lógica de progressão. Esse tipo de escolha ajuda a manter o jogador engajado, porque nada parece gratuito ou colocado apenas por colocar.

Os elementos visuais também trabalham a favor da imersão. Em alguns trechos específicos, o ambiente estava tão bem detalhado, com vísceras e coisas propositalmente grotescas , que eu cheguei a sentir uma leve náusea e repulsa. E aqui isso é um elogio: em um jogo de horror, causar esse tipo de reação física é sinal de que a ambientação acertou em cheio.

Falando em tensão, A.I.L.A. faz uma boa entrega no que se propõe. Não se apoia só em jumpscares — embora eles estejam presentes e funcionem bem — mas em toda a construção de som e atmosfera. O design sonoro amplificam a tensão e te fazem ficar com o fone atento a cada estalo no chão, cada ruído distante, como se algo estivesse sempre prestes a acontecer. Essa sensação de perigo iminente é constante e mantém o jogador alerta do começo ao fim.

A.I.L.A – Pulsatrix Studios

Um universo promissor

É claro que A.I.L.A. não é um jogo perfeito. Durante a minha sessão, houve momentos de framedrop em transições entre gameplay e cutscenes, e em algumas ocasiões os modelos de personagens e certas animações bugavam de forma visível. Nada que tenha estragado a experiência, mas são situações que quebram um pouco da imersão — e num jogo de horror, cada detalhe conta. Ainda assim, vale lembrar que estamos falando de uma build de preview, e é de se esperar que a versão final chegue muito mais polida.

Essas pequenas falhas não tiram o mérito do que a Pulsatrix está construindo aqui. A.I.L.A. apresenta um universo crível e intrigante, misturando a frieza da tecnologia futurista com referências diretas ao terror clássico de forma consistente. A sensação ao terminar essa primeira experiência é de curiosidade: para onde essa história vai nos levar?

A.I.L.A – Pulsatrix Studios

No fim, A.I.L.A. se mostra um survivor horror nacional extremamente promissor. Demonstra maturidade técnica e criativa, além de entregar uma imersão que poucos jogos do gênero conseguem alcançar tão cedo no desenvolvimento. Ainda sem data oficial de lançamento, o título já merece estar no radar dos fãs de horror.

Agradecemos à Pulsatrix Studios por disponibilizar o código para este preview e deixamos aqui a dica: vale muito a pena já colocar A.I.L.A. na sua wishlist da Steam. Pelo que foi apresentado até agora, esse é um daqueles jogos que tem tudo para marcar presença no gênero e reforçar ainda mais a força da cena indie brasileira.

Criador de mundos, designer gráfico e entusiasta dos games. Tem mais horas de jogo do que de sono — e tá tudo bem.